Sim, a comunicação não foi a melhor. Também é verdade que o SMS da ANEPC não chegou a muitos (quem vos escreve é um exemplo) e parece que o desempenho do SIRESP foi mais do mesmo. Tudo isto é verdade.
Um apagão nunca seria oportuno, mas ao acontecer em altura de pré-campanha eleitoral, faz com que as declarações e as discussões que vamos lendo e ouvindo por aí sejam mais para criar o soundbite perfeito para o jornal das 8 da noite do que para colocar na agenda fragilidades e pontos a melhorar.
Um dos pontos que esta crise veio demonstrar, é o da impreparação da população para estes eventos excepcionais. E ao escrever isto, o objectivo não é, de todo, esconder as fragilidades que o Estado revela. Pelo contrário. Esta impreparação é também ela responsabilidade do Estado. Responsável, primeiramente, porque não tem a coragem de afirmar, de forma clara, que numa situação de excepção, nenhum Estado consegue responder às solicitações e necessidades de todos e de cada um. O foco estará em situações prioritárias e mesmo essas poderão não ser resolvidas atempadamente. É fácil perceber que para quem dirige, assumir isto não será muito sedutor do ponto de vista eleitoral. Mas quem dirige ou venha a dirigir o país deverá ter a coragem de passar esta mensagem pouco popular, é certo, mas inteiramente verdadeira. E ao referirmos esta questão, podemos ir para o segundo ponto onde o Estado tem também responsabilidade: o da formação e preparação dos cidadãos para estes eventos. Começando, desde logo, pelos mais novos nas escolas mas também pelos adultos que, possivelmente, até serão mais resistentes a este tipo de abordagem. Por mais difícil que seja o passar da mensagem, o Estado pode e deve insistir nas iniciativas que levem cada vez mais cidadãos a serem proactivos e a procurarem serem autossuficientes em situações de excepção.
A questão do kit de emergência é essencial, como se viu na passada segunda-feira. Ao fim de 2 ou 3 horas sem energia, rádios portáteis e pilhas eram bens escassos nas lojas e os supermercados registavam filas de pessoas à procura de bens essenciais para lidarem com uma crise energética que se temia prolongada, com os já conhecidos exageros similares aos dos primeiros dias da pandemia. É importante mudar o chip. É importante que deixemos de ser reactivos. É importante que uma recomendação da UE para a importância do kit de emergência deixe de ser alvo de críticas e escárnio de muitos e que passe a ser visto como algo indispensável para termos em nossas casas. Não, numa situação de crise excepcional o Estado não vai poder providenciar refeições para todos. Não, o Estado não vai providenciar a higiene para todos. Não, o Estado não vai conseguir fornecer medicamentos e outros itens essenciais a todos. Teremos que ser autossuficientes durante algumas horas ou dias. E o apagão de 28 de Abril foi só um pequeno aviso e uma espécie de simulacro para todos percebermos as nossas fragilidades. Quando, por exemplo, o tão esperado sismo um dia chegar (e temos tido uns lembretes disso mesmo), será bem pior. Se for de uma magnitude elevada, não serão os bombeiros do nosso município ou as forças de autoridade mais próximas que nos irão ajudar nas primeiras horas, pois estes também serão afectados nos seus quartéis, esquadras e veículos. Além disso, as estradas não estarão transitáveis para qualquer ajuda nos chegar no imediato. Nos primeiros minutos e horas após um sismo de grande magnitude, os primeiros salvamentos serão efectuados pela população e não pelas equipas de socorro. E se isto serve para o socorro, também serve para a obtenção de bens essenciais à nossa sobrevivência e dos nossos. É muito importante termos isto presente.
Preparemo-nos então. Sejamos proactivos nesta questão. O Estado mas também todos nós cidadãos. Aprendamos todos com as fragilidades que esta crise de algumas horas nos revelou. Um dia poderá ser mesmo a sério.
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