Sim, a comunicação não foi a melhor. Também é verdade que o SMS da ANEPC não chegou a muitos (quem vos escreve é um exemplo) e parece que o desempenho do SIRESP foi mais do mesmo. Tudo isto é verdade.
Comunicar Risco e Resiliência
Blog sobre Protecção Civil e cidadania.
Nota Editorial
sábado, 3 de maio de 2025
O simulacro de 28 de Abril
terça-feira, 10 de novembro de 2020
COMUNICAÇÃO DE RISCO: ALGUNS CONCEITOS, A IMPORTÂNCIA DO PLANO DE COMUNICAÇÃO E A COMUNICAÇÃO DE RISCO EM SAÚDE PÚBLICA (2ª parte)
Nota: este texto por mim elaborado, foi publicado na edição de Setembro da newsletter do CEIPC (Centro de Estudos e Investigação em Proteção Civil). Esta é a 2ª parte do mesmo.
Importância do Plano de Comunicação de Risco
Um plano permite que comportamentos
possam ser interiorizados e para isso é importante que os mesmos sejam
testados, revistos e devidamente percebidos por todos aqueles que irão seguir
as suas diretrizes aquando da ocorrência de um dado evento. Para Gisela
Oliveira, não existem regras pré-definidas para a elaboração de um plano.
Contudo, existem três aspetos fundamentais na elaboração do plano: o
conhecimento da comunidade, a indicação do local onde a população pode procurar
as informações necessárias e o foco nos assuntos e técnicas do risco e não nas
metas gerais do plano” (Oliveira, 2014). Sandra Cristina Moreira de Jesus,
acrescenta que “nesta etapa as estratégias e as mensagens são alvo das
adaptações e modificações necessárias consoante a própria evolução do processo
da comunicação do risco. Os materiais e as mensagens podem ter de ser revistas,
atualizadas e, até mesmo, difundidas em formatos diferentes daqueles que foram
definidos anteriormente com o intuito de alcançar os objetivos estabelecidos pela
equipa de trabalho envolvida no processo da comunicação do risco. Esta etapa
pode impulsionar o surgimento de novas discussões e de questões que não foram
previstas nas etapas anteriores” (Moreira de Jesus, 2013).
É importante referir que a
Comunicação de Risco deve sempre partir do princípio de que o público deve ser
informado com a verdade e que acontecimentos relevantes nunca deverão ser
escondidos. Com todas as fontes de informação a que os cidadãos têm hoje acesso,
certamente, esses acontecimentos irão ser descobertos, havendo o risco de os
mesmos serem empolados e surgirem boatos ou rumores falsos. Além disto, a perda
da credibilidade por parte de quem comunica, poderá ser um dano irreversível na
estratégia de comunicação. Mesmo que existam poucos dados, é preferível que
estes sejam divulgados do que os omitir. Caso não exista informação disponível
sobre um dado acontecimento, é preferível dizer isso mesmo. A honestidade cria
credibilidade. Para Gisela Oliveira, existem sete passos para gerir melhor uma
situação de crise:
- Estar preparado, tendo um plano de
comunicação e agindo de forma proactiva e não reativa;
- Ser o primeiro a falar,
comunicando de imediato e de forma eficaz, evitando rumores e especulação;
- Ser transparente e honesto, não
escondendo informação do público pois ela chegará à população de uma forma ou
de outra;
- Ser consistente, fiel aos factos e
comunicar, assim que possível, as boas e as más notícias. Deve ser identificado
um porta-voz dentro da organização/entidade e este terá autoridade e o
conhecimento para falar em nome da mesma;
- Não deixar de prestar declarações,
mesmo que o pior já tenha passado. Devem ser retificadas as informações falsas
e evitar que Comunicação Social procure informações em fontes menos fidedignas;
- Não esquecer as redes sociais,
pois são uma fonte de veicular informação e que pode afetar de forma positiva
ou negativa a imagem da instituição. Incluir no plano de comunicação uma equipa
experiente para fazer a gestão e a atualização da informação nas redes sociais;
- Aproveitar a oportunidade que a crise possa eventualmente proporcionar, de modo a obter algo de positivo para a organização, nomeadamente, no campo da imagem e da credibilidade (Oliveira, 2014).
Comunicação de Risco em Saúde Pública
Tal como já foi referido a OMS
define Comunicação de Risco como a “troca de informações, aconselhamento e
opiniões em tempo real entre peritos, líderes comunitários ou responsáveis e as
pessoas em risco” (OMS, 2018). Para Lúcio Meneses de Almeida, “a comunicação do
risco em Saúde Pública envolve o comunicador (médico de saúde pública,
autoridades administrativas, policiais ou outras) e o público-alvo mais ou
menos heterogéneo revestindo-se o processo de comunicação do risco em Saúde
Pública duma maior complexidade e impacte potencial” (Meneses de Almeida, 2007).
A OMS elaborou para o efeito um documento intitulado “Comunicação de Riscos
em Emergências de Saúde Pública – Um guia da OMS para políticas e práticas em
comunicação de risco de emergência” com diretrizes para todos os
Estados-Membro da organização, parceiros e outras partes interessadas na
preparação e resposta a emergências. Neste documento, a OMS deixa algumas
recomendações para uma Comunicação de Risco eficaz:
- Uma delas é da conquista da
confiança e a participação das populações afetadas;
- A segunda é da integração da
Comunicação de Risco nos sistemas de saúde e de resposta às emergências;
- A terceira está relacionada com a
prática da Comunicação de Risco e sobre a melhor forma da mesma ser feita,
tendo em conta os avanços dos media e as grandes transformações sociais e
demográficas. Nesta recomendação é também dado enfoque à importância de um
planeamento atempado e continuo, focado na preparação e na resposta (OMS,
2018).
Como podemos agora testemunhar in
loco, os surtos são acontecimentos que se caracterizam pela
imprevisibilidade e inevitabilidade, gerando confusão, incerteza e sentido de
urgência. São geradores de elevada carga mediática, proporcionam a difusão de
falsa informação e sobrestimação do risco (Meneses de Almeida, 2007). É de
realçar que todos estes aspetos têm ficado bem à vista na atual pandemia de
Covid-19. Segundo Lúcio Meneses de Almeida, a
Comunicação do Risco em cenário de surto, tem os seguintes objetivos:
- Construir, manter ou restaurar a confiança;
- Melhorar o conhecimento e a compreensão;
- Orientar e promover atitudes e comportamentos corretos;
- Promover a colaboração e a cooperação entre parceiros, público e
restantes stakeholders (Meneses de
Almeida, 2007).
Todos nós temos experienciado muito do que aqui está mencionado durante a pandemia de Covid-19. Quer na complexidade da Comunicação de Risco em saúde pública, nomeadamente, quando falamos de uma doença onde o conhecimento científico era bastante reduzido no início da mesma (tendo ainda, passados alguns meses, muito para se conhecer), quer pela dimensão global da pandemia e o mediatismo que toda a informação que é apresentada ganha imediatamente. Nomeadamente, a que se refere a cuidados de autoproteção ou a dados sobre o número de contaminados e óbitos. Ao longo destes meses, muita informação falsa teve de ser desmentida (muita dela, veiculada por dirigentes políticos), naquela que é a primeira pandemia verdadeiramente global a decorrer na era das redes sociais e num mundo altamente digitalizado.
Conclusões
A pandemia que estamos a atravessar
veio, uma vez mais, dar enfoque à importância da Comunicação de Risco e de
todos os conceitos que lhe estão associados. Se é habitual vermos este tipo de
comunicação a ser posta prática, nomeadamente, aquando da ocorrência de incêndios
florestais ou situações meteorológicas adversas, este ano, tivemos a novidade
de a poder observar devido a uma questão de saúde pública. A Comunicação de
Risco relacionada com a pandemia de Covid-19, surge diariamente, de forma
global e com um mediatismo nunca visto, que é potenciado por uma sociedade altamente
globalizada e digital.
De forma genérica, uma comunicação
eficaz deve criar mensagens simples e de fácil assimilação, devendo utilizar
para este efeito diversas plataformas de comunicação. As mensagens devem ser
coerentes e devem partir sempre do princípio da obrigação da transmissão da
verdade dos factos.
A Comunicação de Risco é a troca de
informações entre diversos stakeholders (peritos, responsáveis
políticos, líderes comunitários e população), devendo todos eles estarem
envolvido no processo. A Comunicação de Risco deve fazer parte integrante de
qualquer resposta de emergência. Apesar das diversas visões por parte de alguns
autores e organizações, podemos concluir que a Comunicação de Risco envolve
todas as fases do Ciclo de Emergência, não estando estanque em nenhuma delas.
A importância das redes sociais para
o sucesso da Comunicação de Risco é, nos dias que correm, fulcral. Através
destas, apela-se à participação do público, transmite-se informações (se
necessário for, em tempo real) e boas práticas. É, igualmente, importante o
acompanhamento das redes sociais de modo a evitar rumores e falsas informações.
Associados à Comunicação de Risco,
existem outros conceitos como o Risco da Comunicação e a Comunicação de Crise.
O Risco da Comunicação ocorre quando a própria comunicação proferida, acaba por
agravar a emergência ou até originar outra. A Comunicação de Crise, segundo
alguns autores, situa-se após a fase da emergência, quando a normalidade ainda
não foi reposta e é necessário transmitir mensagens de confiança e de
esperança, assumindo, contudo, que a crise existe e há que ultrapassá-la.
Outros autores e organizações, colocam a Comunicação de Crise ainda na fase da
emergência. A definição mais comum e aceite para este tipo de comunicação, coloca-a
como a comunicação que se aplica quando as organizações enfrentam um
acontecimento inesperado e que pode colocar em causa a sua reputação e
credibilidade. A Comunicação de Crise servirá para explicar e justificar esse
acontecimento, tentando repor a confiança e a credibilidade da organização.
O Plano de Comunicação de Risco é um
instrumento deveras importante, pois permite que aqueles que o vão colocar em
prática interiorizem comportamentos e procedimentos. O plano só será bem-sucedido
se for testado, revisto e devidamente interiorizado por todos aqueles que o vão
utilizar aquando do momento da emergência. É importante que o plano contemple o
conhecimento da comunidade a que se dirige, que tenha indicação sobre os locais
onde a população poderá obter informação oficial e credível e que tenha o foco
no risco propriamente dito e não nas metas gerais do plano.
O processo de Comunicação de Risco
em Saúde Pública, nomeadamente, em tempo de pandemia, serve, essencialmente,
para restaurar e manter a confiança da população, melhorando o seu nível de
conhecimento e compreensão sobre o risco. Para este efeito, deve transmitir atitudes
e comportamentos de autoproteção corretos e promover a colaboração entre todas
as partes interessadas, desde especialistas, responsáveis políticos e a
população em geral.
A Comunicação de Risco, seja em que circunstância for, deve sempre partir do princípio da verdade na informação transmitida, não escondendo nenhum facto relevante. Só desta forma será possível estabelecer um sentimento de credibilidade junto daqueles a quem a comunicação se dirige.
“Sociedades onde existe uma ausência
de informação no desenvolvimento do risco, práticas de preparação e prevenção,
normas legais e regras ou informação aos cidadãos, têm revelado um aumento de
vulnerabilidade aos efeitos de desastres” (Palenchar, 2008)
Link para a primeira parte do texto: COMUNICAÇÃO DE RISCO: ALGUNS CONCEITOS, A IMPORTÂNCIA DO PLANO DE COMUNICAÇÃO E A COMUNICAÇÃO DE RISCO EM SAÚDE PÚBLICA (2ª parte)
domingo, 25 de outubro de 2020
COMUNICAÇÃO DE RISCO: ALGUNS CONCEITOS, A IMPORTÂNCIA DO PLANO DE COMUNICAÇÃO E A COMUNICAÇÃO DE RISCO EM SAÚDE PÚBLICA (1ª parte)
O que se pretende com este breve trabalho, é referir alguns conceitos relacionados com a Comunicação de Risco, dar enfase à importância do Plano de Comunicação de Risco e, dada à pertinência que a mesma tem no momento atual, abordar de forma breve a Comunicação de Risco em Saúde Pública. Com a elaboração deste texto, é também feito um convite a que cada um possa refletir sobre o processo comunicacional efetuado durante a pandemia, alargando essa mesma reflexão às entidades a que cada um de nós pertence ou acompanha de perto.
Para comunicar são necessários quatro elementos:
- Uma fonte ou emissor;
- Uma mensagem;
- Um destinatário ou recetor;
- Um suporte para a mensagem que a permita levar ao recetor.
A comunicação que é efetuada do emissor para o recetor é de sentido único. Para que o emissor tenha a certeza de que a mensagem foi bem compreendida pelo recetor, é necessário que este responda à comunicação. É este feedback que fecha o sistema, tornando-o dinâmico e fazendo com que a comunicação tenha dois sentidos.
Lasswell resumiu o processo de comunicação em cinco questões:
- Quem comunica? (que fontes?);
- A quem? (quem são os alvos?);
- O quê? (que mensagem queríamos transmitir e qual foi realmente assimilada?);
- Como? (que canais de comunicação? Serão os mais eficazes?);
- Com que resultado? (os objetivos foram alcançados? O que é preciso fazer para a tornar mais eficaz?).
De forma sintética, os princípios para uma comunicação eficaz são os seguintes:
- Não querer dizer de mais. Quanto mais complexa a mensagem, maior a dificuldade em ser compreendida e retida;
- A repetição, a redundância, a continuidade e a duração são essenciais para a retenção da mensagem, mesmo que para isso se utilizem diferentes formas de o fazer;
- A coerência global das mensagens emitidas deve ser assegurada, de modo a que não existam informações divergentes ou contraditórias. É por esta razão importante que as organizações definam uma política global de comunicação;
- A obrigação da verdade. Talvez o mais importante princípio de uma boa comunicação. Se esta obrigação não for cumprida, toda a credibilidade do emissor cai por terra. Veicular informações erradas ou omitir informações importantes, pode fazer ruir toda a estratégia de comunicação implementada.
“No seu melhor, a comunicação de risco não é uma comunicação top-down do especialista para o leigo, mas sim um diálogo construtivo entre todos os que estão envolvidos num determinado debate acerca do risco” (Lofstedt, 2003)
Para este sucesso ser efetivo, é importante que comunicação seja transparente, de fácil compreensão, que admita incertezas e que utilize diversos canais e plataformas. É importante referir a importância das redes sociais neste contexto. Através delas, pode apelar-se à participação do público, transmitindo informações e boas práticas e, não menos importante, verificar rumores e possíveis falsas informações que possam estar a circular.
A OMS refere também a Comunicação de Risco em Emergências como “uma intervenção executada não apenas durante, mas também antes (como parte das atividades de preparação) e depois (como apoio à recuperação) da fase de emergência, para permitir a todas as pessoas de risco tomarem decisões informadas para se protegerem a si próprias, às suas famílias e às suas comunidades contra as ameaças à sua sobrevivência, saúde e bem-estar”. Contudo, existem outros autores, como Gisela Oliveira, que encaram “a Comunicação do Risco como preventiva” (Oliveira, 2014) e que esta deverá existir antes da ocorrência do evento grave. Partindo da visão desta autora, a Comunicação de Risco deve estar centrada no esclarecimento das populações sobre os riscos e as possíveis consequências de um determinado evento e das respetivas medidas de autoproteção, contribuindo para a perceção do risco por parte de todos os envolvidos no processo, assim como para a assimilação de comportamentos para fazer face à situação em causa. A Comunicação de Risco deve ser parte integrante do processo de gestão do risco.
Esta autora fala-nos também que durante o evento em causa, existe aquilo a que chama do Risco da Comunicação, que mais não é do que o risco de a comunicação proferida agravar a situação e comprometer a resolução do evento. “O Risco da Comunicação ocorre num espaço-tempo específico, durante uma situação de emergência e pode agravar esta mesma situação ou originar uma outra. Nestes momentos específicos existe o risco de Comunicar” (Oliveira, 2014).
terça-feira, 24 de julho de 2018
Discursos de 1986 e 2017 e como pouco mudou...
Acabei, por estes dias, a leitura do livro "Cercados Pelo Fogo em Águeda", da autoria do Prof. Xavier Viegas, que relata e analisa o acidente que vitimou treze bombeiros e três civis, em Junho de 1986, num incêndio florestal em plena Serra do Caramulo. Recorde-se que este acidente foi antecedido, um ano antes, por um outro que vitimou catorze bombeiros num incêndio florestal, em Armamar, que também foi alvo da investigação do mesmo autor e que resultou na publicação do livro "Cercados Pelo Fogo em Armamar".
O Prof. Xavier Viegas decidiu, no final do livro, colocar como anexos as intervenções dos deputados na Assembleia da República, na sequência do acidente. É curioso verificar que, trinta e um anos passados, estes discursos bem que poderiam ter sido retirados dos discursos efectuados no ano passado aquando dos trágicos acontecimentos de Pedrogão e de Outubro.
Questões, mais ou menos, pertinentes ou outras com real ou duvidoso impacto, tais como, o ordenamento do território e da floresta em particular; a expansão da monocultura do eucalipto; o abandono do interior; a falta de gestão de combustíveis junto das casas e aglomerados populacionais; a "famosa" questão do "fogo posto"; ou a falta de aposta na prevenção, foram à época referidas pelos diversos grupos parlamentares. O curioso é que, ao lermos a transcrição destas intervenções, é como se estivéssemos a ler as transcrições das intervenções dos deputados em 2017 que, infelizmente, foram em dose dupla e com um rasto de tragédia bem maior.
A triste conclusão que se pode retirar, é simples: em trinta anos, o que se fez para melhorar foi pouco. Pior: com as alterações climáticas e o abandono a que uma parte significativa das nossas florestas foram sujeitas, criou-se uma situação ainda mais insustentável do que na década de 80 e com as dramáticas consequências que presenciámos o ano passado. Resta formular um desejo: que, daqui a uns anos, quando forem publicadas outras obras sobre os tristes acontecimentos de 2017, que os discursos dos políticos nessa altura não se voltem a confundir com discursos do passado. Parecendo um pormenor, já seria sinal que algo tinha, verdadeiramente, mudado para melhor.
Ps: Infelizmente, à data que este texto é publicado, outra tragédia relacionada com incêndios florestais acontece. Desta vez, foi na Grécia. Sinal que o problema é global, que as alterações climáticas são uma realidade e que estas induzem a incêndios florestais em que o fogo tem um comportamento, verdadeiramente, explosivo e que quando exposto a florestas e a interfaces urbano-florestais sem o mínimo de ordenamento e tratamento, desencadeia verdadeiras tragédias como a que os gregos estão a viver.
quarta-feira, 18 de outubro de 2017
Mudar pessoas ou mudar o sistema?
Ora, um Sistema de Protecção Civil capaz e eficaz, tem de ter, obviamente, uma abrangência de preocupações muito para além daquelas que decorrem dos incêndios florestais. Quer o sistema, quer a entidade que o gere e o orienta, devem nas diversas fases do Ciclo da Gestão de Emergência focar-se numa série de possíveis ocorrências, sejam elas de origem natural ou tecnológica.
Tendo em conta que a ANPC sempre teve o seu foco e atenção mediática no período de incêndios florestais , os Comandantes, os Segundos Comandantes e Adjuntos que lhe estão afectos, quer a nível nacional como a nível distrital, são avaliados (nomeadamente no plano mediático), quase exclusivamente, pelo seu desempenho nesta mesma época. Fará sentido isto acontecer? Fará sentido que estes responsáveis operacionais possam ser especialistas em tantas áreas, tendo em conta que podem estar a comandar operações em ocorrências de origem diversa? E, por outro lado, é normal que sejam avaliados somente pelo seu desempenho numa delas? Na minha opinião, a resposta a todas estas questões é não. Ninguém é especialista em combate a incêndios florestais num dia e, no dia seguinte, é especialista numa operação de resgate de vitimas de um sismo, por exemplo. E é por isto e não só, que a ANPC no que à fase da Resposta diz respeito, deveria ter, acima de tudo uma função de coordenação e nunca de comando. A ANPC só deveria "entrar em campo" na fase da Resposta, quando uma operação de socorro pela sua complexidade e dimensão passa a ser uma operação de Protecção Civil. Por exemplo, um Grande Incêndio Florestal (GIF), quer pelos diversos agentes presentes no Teatro de Operações, quer pela possível necessidade de deslocamento de populações, quer pela necessidade de corte de estradas ou quer pela logística necessária ao desenrolar da operação, entre outros, é em si uma operação de Protecção Civil. E aqui sim, a ANPC deve ter um papel importante não como comando, mas sim como coordenador. No comando de operações de um GIF devem estar elementos com conhecimentos específicos (daí serem especialistas...) em incêndios florestais. Com conhecimentos para avaliar a possível evolução do incêndio, com capacidade de utilizar a informação meteorológica disponível, entre outras questões. Sendo coadjuvados por pessoas com igual conhecimento e que conheçam, efectivamente, o terreno onde o incêndio evolui e as características do mesmo.
Este exemplo de um GIF comandado por especialistas, serviria para outra qualquer ocorrência de natureza mais complexa. Faz sentido um Comandante da ANPC assumir o comando de uma dada operação tendo muitas vezes menos conhecimento e experiência que o anterior Comandante das Operações de Socorro? Penso que a resposta é óbvia.
Por isso e nestes dias em que se discutem nomes (em alguns casos, com todo o sentido), talvez fosse positivo ir mais além e discutir o próprio sistema. Se quiserem, os dois sistemas: o Sistema Nacional de Protecção Civil e o Sistema Nacional de Defesa da Floresta Contra Incêndios. Quando iniciei este texto, o Domingo negro de 15 de Outubro ainda não tinha acontecido mas quando o acabei já tinha conhecimento que, pelo menos, mais 41 portugueses tinham falecido devido aos diversos incêndios florestais ocorridos nesse fatídico dia. Nesse mesmo Domingo, ao largo da nossa costa passou o furacão mais intenso registado no lado Este do Atlântico e que, apesar de ter estado longe de nós, acabou por ter influência na tragédia que se desenvolveu. Se juntarmos à equação a tragédia de Pedrogão e a forma como ela se desenvolveu, o longo período de seca que estamos a viver neste momento, o risco sísmico que grande parte do país tem e as alterações climáticas que são por demais evidentes, temos provas e sinais mais do que suficientes que o nosso Sistema de Protecção Civil irá ser muito mais vezes colocado à prova no futuro e de forma cada vez mais dura.
terça-feira, 20 de junho de 2017
Será 17 de Junho o Dia 0 ?
Ana Fernandes, Público, 19 de Junho de 2017.
São 20h00 de 20 de Junho de 2017. A esta hora os fogos de Pedrogão Grande e de Góis continuam activos. Um autêntico exército de bombeiros portugueses, espanhóis e outras entidades continuam empenhadas no combate. Há três horas atrás surgiu a notícia, amplamente confirmada por todos os órgãos de comunicação social, que um avião Canadair tinha caído no combate ao incêndio de Pedrogão. Ao que parece, pessoas ligadas às entidades oficiais confirmaram esta informação em conversas com jornalistas. Estranhamente, duas horas depois essa informação é desmentida (???). Ainda bem.
Ontem no Prós e Contras houve mais um debate sobre incêndios florestais. Não sei há quantos anos existe este programa mas este tema deve ser certamente dos mais debatidos ao longo de todos estes anos. Não querendo recuar para os anos 80 e 90, as semelhanças entre o debate de ontem e os debates ocorridos em 2003 não são pura coincidência. Como não são pura coincidência as semelhanças com os debates que aconteceram em 2005, 2013 e 2016 (isto para resumir a coisa). As receitas, os diagnósticos, as justificações e as acusações são as mesmas de sempre. Quase que é possível adivinhar o que cada um vai dizer. A comunidade científica, governantes, ANPC e bombeiros a esgrimirem argumentos. Uns e outros a dizerem verdades. Mas como sempre, uns e outros com a incapacidade de perceberem que todas as contribuições são válidas e que só em conjunto será possível, de forma séria e eficaz, resolver um problema de décadas. Sem supostas superioridades morais ou intelectuais. Problema esse que vai muito para além da prevenção, da preparação e da resposta, mas que é também um problema social, demográfico e de ordenamento. Todos o sabemos. Os que se interessam pelo tema ou aqueles que só se lembram dele quando o jornal das 8 da noite abre com chamas por todos os lados. Todos o sabem.
São 20h20 de 20 de Junho de 2017 e pede-se, por favor e de uma vez por todas, que aquela tragédia inesquecível de 17 de Junho de 2017 seja o Dia 0 do problema dos incêndios florestais em Portugal. Se 64 mortos não servirem para que seja desta, não vale a pena repetirem debates, comissões, estudos e anúncios disto e daquilo. Ninguém mais vai acreditar se não for desta. Aproveitem a oportunidade. Aproveitem a mobilização do país. E, acima de tudo, honrem as centenas de vidas que já se perceberam neste combate. É agora ou nunca.

