Nota Editorial

Este blog não se apresenta ligado a qualquer organização ou instituição relacionada, directa ou indirectamente, com a Protecção Civil e ao socorro. Não existe aqui qualquer intenção ou presunção de substituir os espaços oficiais das organizações que tutelam esta área ou de outras que com ela estejam relacionadas ou ligadas, quer do ponto de vista informativo, quer do ponto de vista técnico.
É um blog criado por um cidadão com interesse na área da Protecção Civil e que pretende, com o que neste espaço é publicado, dar a conhecer e, se possível, envolver outros cidadãos nas questões ligadas com as matérias da prevenção, mitigação, resposta e recuperação dos diversos tipos de emergências ou catástrofes.
Comunicar possíveis riscos e acções de resiliência é o principal objectivo deste espaço, sempre do ponto de vista de uma cidadania que se quer atenta e participativa.
A frase "todos somos Protecção Civil" é o lema deste espaço.

domingo, 26 de julho de 2026

VOLUNTARIADO EM PROTEÇÃO CIVIL: APROVEITAR BEM A BOA VONTADE




Nota: este texto por mim elaborado, foi publicado na edição de Maio de 2026 da newsletter do CEIPC (Centro de Estudos e Investigação em Proteção Civil).

É sabido que nas primeiras horas de um evento catastrófico, seja ele de origem natural ou tecnológica, o primeiro auxílio e socorro é prestado pelas populações das áreas atingidas. Estradas bloqueadas, comunicações interrompidas, falta de energia e danos nas próprias infraestruturas das organizações que prestam socorro, levam a que a população fique por sua conta durante tempo indeterminado. Tudo o que foi aqui descrito ocorreu nas zonas mais atingidas pela depressão Kristin, nomeadamente, no distrito de Leiria. Nos dias que se seguiram foram vários os relatos de comunidades que ficaram entregues a si próprias durante horas e até mesmo dias, acima de tudo, pelo corte no fornecimento de energia e pela obstrução de vias que não permitiam a chegada de socorro diferenciado.

Quando o país teve a noção da verdadeira dimensão e escala dos estragos (o que não aconteceu de imediato), foi bem visível o espírito de solidariedade de centenas de voluntários que ocorreram às zonas mais atingidas para ajudar em tarefas de limpeza e desobstrução de vias, em tarefas ligadas à logística (nomeadamente, distribuição de bens alimentares e artigos de primeira necessidade) e de auxílio à reparação de habitações ou de outras estruturas afetadas. Se tivermos como referência o Ciclo da Emergência, verificamos, uma vez mais, o papel fulcral do cidadão comum, quer no momento da Resposta/Emergência, quer no momento da Recuperação de eventos que, nas primeiras horas, ultrapassam a capacidade de resposta das equipas de emergência locais e dos municípios em restabelecer os padrões mínimos de vida das suas comunidades. Importa referir que foram os próprios municípios atingidos a apelar na comunicação social e através das redes sociais, a que estes voluntários se apresentassem em pontos, previamente, definidos, de modo a que de forma, minimamente, organizada lhes fossem atribuídas tarefas.

Bolsa Nacional de Voluntários em Proteção Civil

Tendo em conta o que se descreveu atrás, penso ser importante a criação de uma Bolsa de Voluntários em Proteção Civil (com esta ou outra designação). Por um lado, podemos fomentar e aproveitar o espírito de solidariedade e de cidadania de todos aqueles que se dispõem a ajudar. Por outro lado, do ponto de vista estratégico, permite que o Estado e os municípios tenham mais uma “força” disponível para auxiliar no que for necessário, conferindo organização e coordenação a esta boa vontade. É importante mencionar, de forma clara, que não se pretende, de modo algum, substituir as valências das equipas de emergência especializadas. O que é pretendido com esta ideia, é obter um complemento para situações em que a dimensão e a escala de um desastre ultrapassam a capacidade de resposta das equipas de emergência e das autoridades locais e nacionais.

Breve sugestão de modelo

O patamar nacional, ou seja, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), seria a responsável pela criação e gestão de uma plataforma centralizada de registo e formação de voluntários. No que diz respeito à distribuição dos voluntários, estes seriam divididos por municípios (de acordo com a sua morada de residência), cabendo a estes a dinamização dos voluntários que lhes estão afetos, nomeadamente, através de simulacros, ações de formação com agentes de proteção civil locais, entre outras iniciativas que se julguem convenientes.

Caberia também ao patamar nacional o papel de regulador da formação ministrada aos proponentes a voluntários, garantindo a uniformização da mesma. Nesta formação inicial todos os voluntários devem ter noções básicas da organização e hierarquia do sistema nacional de proteção civil, Ciclo da Emergência, Suporte Básico de Vida, noções básicas de combate a incêndio, importância do kit de emergência, entre outros temas que se julguem relevantes. Os temas mais teóricos poderão ser apresentados e testados de modo online através da plataforma, sendo que as formações nos temas mais práticos poderão ser ministradas pelos agentes de proteção civil locais.

A ANEPC em articulação com os municípios, deve também definir quais as formas mais eficazes de ativação dos grupos de voluntários, nomeadamente em situações em que as comunicações possam estar dificultadas ou mesmo interrompidas.

Esta bolsa deve identificar perfis que se adequem a determinadas funções mais especificas (profissionais de saúde, eletricistas, profissionais de construção civil, entre outras). Em caso de necessidade, a plataforma deve permitir que um dado município com necessidade de voluntariado numa área especifica, possa consultar voluntários de outros municípios, de modo a poder suprimir a necessidade que tem. Se tivermos como exemplo a depressão Kristin, foi notória a necessidade por parte das populações mais afetadas de profissionais de construção civil para ajudar, por exemplo, na reparação de telhados, tendo existido vários apelos por parte dos municípios a voluntários com estas competências.

Para uma maior confiança daqueles que vão usufruir da ajuda destes voluntários, seria importante a apresentação de certificados de competências por parte dos voluntários que se propõem a colaborar em funções mais específicas (ex.: profissionais de saúde). Além da formação inicial atrás mencionada, é importante definir um Código de Conduta do Voluntário, pelo qual todos os que se propõem a desenvolver esta atividade deverão sempre reger o seu comportamento. Seria, de igual modo, importante a criação de um seguro de acidentes pessoais para os voluntários, de modo a que estes possam atuar com confiança. Este pormenor daria também seriedade a esta iniciativa, valorizando o papel dos voluntários.

Exemplos nacionais de voluntariado em proteção civil

A nível nacional existem diversas associações reconhecidas pela ANEPC como Organização de Voluntariado em Proteção Civil (OVPC). São organizações privadas, sem fins lucrativos e de cariz voluntário que colaboram na prevenção e sensibilização das populações sobre riscos e autoproteção. Em situações de catástrofe, colaboram em ações de apoio logístico e, algumas delas, podem também colaborar no socorro, operando com voluntários formados.

Além destas OVPC, existem as Unidades Locais de Proteção Civil (ULPC). Certamente, alguns dos que estão a ler este texto dirão que o que foi atrás apresentado já está programado para estas estruturas. É um facto que muito do que atrás foi escrito são funções que estão contempladas para as ULPC. Basicamente, estas estruturas atuam à escala da freguesia, estando sob responsabilidade do Presidente da Junta respetiva e funcionam em articulação com o Serviço Municipal de Proteção Civil. Têm como função promover a segurança, prevenir riscos e apoiar a população em caso de necessidade. São constituídas por elementos da junta de freguesia e de voluntários, devendo estes possuir formação adequada. Têm, sobretudo, a enorme vantagem de atuarem localmente, com conhecimento elevado do território e da população que o ocupa. O problema das ULPC é, primeiro que tudo, o desconhecimento da sua real implantação no país, sendo certo que todos conhecemos freguesias onde elas existem e outras que não. O mais curioso é que muitas vezes no mesmo município, existem freguesias que têm ULPC e outras onde nunca saíram do papel. Não tendo conhecimento de um estudo ou portal onde possa consultar a real implantação das ULPC (eventualmente, só mesmo pesquisando nos sites de cada município ou freguesia), a perceção que tenho é que estas têm uma maior implantação em regiões de interior, muito à boleia da frequência de incêndios florestais nessas localidades. Sobretudo, o que transparece é que a implantação das ULPC é assimétrica, não havendo muitas vezes informação se as mesmas estão a ser dinamizadas e se estão a cumprir o seu papel junto das populações. É uma boa ideia à qual falta informação disponível e fiscalização da sua real implantação e desempenho. É este o principal motivo pelo qual julgo ser fundamental um maior envolvimento do patamar nacional (daí o modelo atrás apresentado) na criação e execução destas estruturas de voluntariado, de modo a que estas passem, efetivamente, do papel à prática e que após a sua criação, sejam devidamente dinamizadas. De qualquer modo, é justo referir que existem bons exemplos de ULPC ao longo do país, com envolvimento junto da população, que funcionam em articulação com os agentes de proteção civil locais e que proporcionam aos seus voluntários a devida formação e ações periódicas de treino.

Considerações finais

As breves sugestões aqui apresentadas para a criação de uma bolsa de voluntariado em proteção civil a nível nacional, não passam disso mesmo: sugestões. Têm, certamente, nuances que podem ser melhoradas, outras que poderão não ser de fácil operacionalização e outras, quiçá, que não façam sentido algum para alguns dos leitores.

O que me parece mesmo mais pertinente é a ideia e a sua concretização. Se a cidadania e a boa vontade daqueles que se dispõem a ajudar outros devem ser valorizadas, por outro lado, do ponto de vista estratégico, o país deve aproveitar esta boa vontade, dando-lhe organização e coordenação. Com a devida formação e organização destes voluntários, podemos retirar a devida utilidade desta vontade de ajudar e evitar situações de voluntarismo inútil ou mesmo o denominado “turismo de catástrofe”. Além disto, através do envolvimento de cidadãos nesta bolsa de voluntariado, podemos ter mais pessoas com conhecimentos básicos na área da proteção civil, sendo estas um excelente veículo de transmissão de boas práticas nas suas famílias e nas comunidades onde se inserem.

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